Butantan-DV: a história contada por quem fez a vacina nascer
Amor, persistência, orgulho, vitória e gratidão. Essas foram as palavras escolhidas por cinco pesquisadores ao resumirem o desenvolvimento da Butantan-DV. Os termos marcam uma jornada longa, feita de tentativas, ajustes e decisões que acompanharam o projeto desde 2010.
Neuza, Vanessa, Claudia, Patrícia e Flávio estiveram no processo desde o início e representam um grupo maior, com mais de 50 profissionais. Juntos, compõem o que chamam de “família dengue”, por terem dividido rotina, etapas e responsabilidades do imunizante tetravalente aprovado pela Anvisa.
“Somos uma pequena amostra de um time em que todos eram muito importantes. Também gostaria de destacar nominalmente o empenho dos coordenadores Gustavo Gonçalves Perrotti, Everton Magno De Sousa, Vivian Massayo Kazyama e Alyne Vieira Barros, que não participaram desse encontro, mas foram essenciais para o desenvolvimento do Insumo Farmacêutico Ativo da vacina dengue”, diz Neuza.
Após cinco anos sem estarem juntos, parte da equipe se reencontrou no Laboratório Piloto de Vacinas Virais (LVV) para recordar momentos decisivos e episódios que marcaram a caminhada até a vacina chegar aos ensaios clínicos.

15 anos de convivência: parte da equipe de desenvolvimento da vacina da dengue em reunião
Primeiros passos
O avanço da dengue no Brasil, que ultrapassou a marca de 1 milhão de casos prováveis em 2010, reforçou a necessidade de um imunizante. Naquele período, Neuza Gallina Frazatti já chefiava o LVV e trabalhava com pesquisas em vacinas. A bióloga recebeu a missão de liderar o desenvolvimento da candidata vacinal após indicação de Isaías Raw, então diretor da Fundação.
“O professor Isaías disse que tinha certeza de que eu iria conseguir, e eu também não tive dúvidas. [...] Foi o Isaías quem me mostrou que com paciência e competência podemos tudo”, lembra.
Com a tarefa definida, Neuza passou a planejar e rabiscar possibilidades até chegar ao formato considerado mais promissor. Em paralelo, reuniu um time inicial de 25 pessoas. Entre elas estava Claudia Regina Menezes Botelho, que ficou responsável pela formulação. A etapa exigiu combinar os quatro sorotipos do vírus da dengue, o que levou a 17 receitas diferentes e mais de 50 experimentos.
“Houve um período muito intenso, em que precisávamos chegar no laboratório às 5h da manhã para começar a formulação. [...] Era puxado, já chegava me sentindo cansada, mas todos os envolvidos sabiam que o esforço era por um bem maior”, conta Claudia.
Vanessa Harumi Takinami e Flávio Mannaro Medeiros também integravam o grupo. Vanessa cuidava do preparo de soluções e das células Vero. Flávio, antes ligado à produção viral, passou para a liofilização, processo que transforma a vacina líquida em pó. Ele segue na função na planta industrial do instituto.
Equipe e rotina
Patrícia Mourão Fuches chegou ao LVV em 2009 e, três anos depois, passou a trabalhar no controle de processos. Durante o período, teve seu primeiro filho e conciliou o início da maternidade com as etapas da Butantan-DV. As longas jornadas de trabalho, muitas vezes aos finais de semana e feriados, exigiram apoio familiar.
“Passamos muitas horas da nossa vida aqui. [...] No meu caso, tudo ficou mais leve quando a minha própria família percebeu que, ao me apoiar, eles também passavam a fazer parte dessa nobre missão”, afirma Neuza.
“A verdade é que os parentes nos conhecem e sabem o quanto aquilo era importante. Por outro lado, havia uma colaboração da equipe. Sempre que foi preciso, tivemos apoio para nos dedicar totalmente às nossas famílias”, lembra Patrícia.
O projeto exigiu definir rotinas, dividir responsabilidades e enfrentar resultados que nem sempre avançavam. Mesmo assim, os pesquisadores seguiram ajustando protocolos e métodos ao longo dos anos.
Desafios e episódios marcantes
Por envolver quatro tipos de vírus, o desenvolvimento se mostrou complexo. Em vários momentos, os resultados iniciais eram incertos. “Cada derrota era encarada como um recomeço. Uma oportunidade para que, finalmente, tudo desse certo”, diz Claudia. Vanessa reforça que desistir não era uma opção.
O ambiente de trabalho também rendeu episódios lembrados até hoje, como o da véspera de Natal em que Flávio e Claudia derrubaram um garrafão de solução de limpeza minutos antes do fim do expediente.
“Fui posicionar o garrafão no chão, mas ele acabou caindo e, literalmente, lavou toda a sala. [...] Eu até falei para a Claudia que ela podia ir embora, porque sabia que ela precisava pegar estrada, mas ela não foi e me ajudou a arrumar tudo”, conta Flávio. O episódio virou motivo de brincadeira entre os colegas. “Miraram no brinde de Natal, mas acertaram no Ano-Novo”, comenta Vanessa.
A convivência diária fortaleceu os vínculos, segundo o grupo. Quando alguém se desanimava, outro membro se colocava à disposição para seguir junto. As pequenas vitórias também eram compartilhadas.
Estabilidade e virada
Um dos principais obstáculos era manter estáveis as quatro cepas usadas no Insumo Farmacêutico Ativo. A potência viral caía rapidamente quando refrigerada. A solução encontrada foi apostar na liofilização.
“Foram inúmeras formulações, configuração e testes. [...] Era bem decepcionante quando a gente olhava e via que a pastilha liofilizada não estava legal. Até que teve um momento que foi!”, relata Flávio.
Com esse avanço e outros ajustes, o produto ficou pronto para os ensaios clínicos, que envolveram quase 17 mil voluntários e testaram eficácia e segurança. Ver os primeiros frascos prontos deixando o laboratório marcou a equipe.
No LVV, uma foto registra o primeiro voluntário a receber a dose. O retrato funciona como lembrança do momento em que entenderam que a vacina seguiria adiante.
Depois da aprovação
A aprovação da Butantan-DV pela Anvisa foi recebida como coroação de anos de dedicação. Para os integrantes do grupo, o projeto representa responsabilidade e impacto direto no país.
“É um orgulho imenso para nós e para toda a sociedade. [...] Mostramos que temos muita capacidade e que a ciência produzida aqui no Brasil é tão boa quanto o que vem de fora. [...] Espero que a nossa conquista sirva de inspiração para muitos outros”, afirma Neuza.
Sobre os planos após o registro, ela resume: “Vamos comemorar, claro! E nos dedicar a fazer uma outra vacina. É a nossa missão!”
