Hilton jogou 17 temporadas e virou ídolo na França
por Deisiana Damarat
A história de Vitorino Hilton começa longe dos grandes estádios europeus. Antes de levantar taças na França, vestir a faixa de capitão e entrar para a história como um dos jogadores mais longevos das principais ligas do continente, o zagueiro deu os primeiros passos no Oeste de Santa Catarina, defendendo a Chapecoense.
Em entrevista concedida ao Novo Folha Regional, Hilton relembrou momentos da trajetória que começou ainda na juventude e que o levou a construir uma carreira de quase três décadas no futebol profissional. Nascido em Brasília, em 13 de setembro de 1977, ele chegou a Chapecó ainda jovem, em 1996, após uma oportunidade nas categorias de base do clube.
O convite surgiu por meio do treinador dos juniores, Júlio Cézar, que via potencial no garoto que jogava futebol no Distrito Federal. A relação com a cidade começou antes mesmo dos primeiros jogos. Hilton conta que poderia escrever um livro sobre sua chegada ao município.
Ele lembra que não estava entre os cinco jogadores inicialmente escolhidos para viajar até Santa Catarina, mas acabou sendo levado após uma indicação do treinador do time amador onde atuava. “Eu não estava entre esses cinco, mas o treinador do time amador em que eu jogava, no Gama-DF, conversou com ele e pediu para que me levasse, pois acreditava que eu tinha potencial”, relembra.
O que parecia ser apenas uma oportunidade se transformou em uma mudança de vida. Depois de algum tempo, Hilton foi o único dos atletas que permaneceram em Chapecó entre os jovens que haviam sido avaliados.
A rotina dos primeiros anos era diferente da estrutura encontrada atualmente no futebol profissional. Os jogadores das categorias de base moravam em casas próximas ao Estádio Índio Condá, dividiam espaços e tinham uma rotina marcada por treinos, viagens de ônibus e adaptação a uma nova realidade.
Primeiros passos
O frio foi uma das primeiras lembranças que ficaram na memória do jogador. Acostumado ao clima do Centro-Oeste brasileiro, ele encontrou em Chapecó uma experiência que não conhecia. “Quando cheguei, morávamos em uma casa perto do Estádio Índio Condá e tínhamos as refeições garantidas todos os dias. Para quem vinha de uma realidade difícil, isso era motivo de muita alegria. O que mais me marcou foi o inverno, porque eu realmente não conhecia o frio”, conta.
Naquele período, a Chapecoense ainda construía sua estrutura. Os treinamentos aconteciam no campo ao lado do estádio ou em outros locais próximos, como Água Amarela. As viagens para jogos eram feitas de ônibus, muitas vezes durante a noite, para disputar partidas no dia seguinte.
Mesmo com as dificuldades, foi nesse ambiente que Hilton começou a perceber que o futebol poderia se transformar em profissão. O momento veio quando passou a treinar com a equipe principal e participou dos coletivos com os profissionais. “Foi quando comecei a treinar com os profissionais para participar dos coletivos. Aos poucos, comecei a mostrar meu talento para o treinador da época, que gostava do meu futebol. Foi nesse momento que passei a sonhar em atuar como profissional”, explica.
A formação também foi marcada pelas pessoas que fizeram parte daquele caminho. Hilton cita o treinador Júlio Cézar, os companheiros de equipe e moradores de Chapecó que ajudaram durante os primeiros anos longe da família.
A distância dos pais também fez parte dos desafios. Foram mais de 1,5 mil quilômetros longe de casa em uma fase em que tudo ainda era novidade. “Os principais desafios foram a distância da família, o frio e, depois, o período complicado que o clube atravessou, que acabou afetando os juniores e obrigando a redução na alimentação”, lembra.
O sonho de jogar profissionalmente veio pela Chapecoense, mas o próximo capítulo da carreira seria escrito no Paraná Clube. A mudança abriu portas para o futebol nacional e, pouco tempo depois, para uma trajetória que levaria Hilton ao outro lado do oceano.
Da Chapecoense para a Europa

A passagem pelo Paraná Clube foi um ponto de mudança na carreira de Hilton. Depois de conquistar espaço no futebol profissional, ele recebeu a oportunidade de atuar em uma equipe com maior visibilidade nacional e passou a viver uma nova fase dentro e fora dos campos.
O jogador lembra que o apoio de José Paraíba Teles, presidente da Chapecoense naquele período, foi importante para que a transferência acontecesse. Antes disso, alguns clubes chegaram a questionar sua altura para atuar como zagueiro. “Alguns dirigentes diziam que eu não era alto o suficiente para jogar como zagueiro. Mesmo assim, mostrei no Paraná que, apesar dos meus 1,80 m, eu tinha capacidade para atuar na posição”, conta.
A mudança também trouxe uma conquista pessoal fora do futebol. Com o novo salário, Hilton conseguiu realizar um sonho da família: ajudar os pais a comprarem uma casa própria.
Além das fronteiras
Pouco tempo depois, surgiu a possibilidade de jogar fora do Brasil. A primeira conversa envolvia uma transferência para o México, mas o destino acabou sendo outro. “Cheguei a dizer para minha esposa: ‘Vamos para o México!’. Mas, dois dias depois, falei para ela: ‘Estou indo para a Suíça’”, relembra.
A ida para o futebol suíço abriu o caminho para uma trajetória que se tornaria ligada ao futebol francês. Hilton chegou ao continente europeu com o objetivo de crescer profissionalmente e buscar espaço em campeonatos de maior visibilidade.
No início, ele não teve medo da mudança. O jogador conta que fez as malas sem conhecer muitos detalhes do país, mas enxergava a oportunidade como uma porta para chegar aos grandes centros do futebol europeu.
Depois de uma passagem pelo futebol suíço, Hilton chegou à França. A ideia inicial era permanecer apenas alguns meses e retornar ao Brasil, mas o caminho tomou outro rumo. Ele recebeu uma proposta do Bastia e acabou se adaptando ao país. Como já falava um pouco de francês, a comunicação ajudou na chegada. Além disso, o estilo de jogo encontrado por ele tinha semelhanças com o futebol suíço.
A França se tornou sua casa durante quase duas décadas. O que começou como uma oportunidade temporária virou uma das trajetórias mais longas de um brasileiro no futebol francês. “Eu pensava em ficar apenas seis meses e voltar ao Brasil. No fim, joguei 17 temporadas na França”, afirma.
Um brasileiro faz história na França

Durante os anos no futebol francês, Hilton passou por clubes como Bastia, Lens, Olympique de Marseille e Montpellier. Em cada equipe, construiu uma história marcada por regularidade, liderança e participação em momentos importantes.
No Olympique de Marseille, viveu uma fase de conquistas. O clube é um dos mais conhecidos da França e, com a equipe, o zagueiro levantou troféus nacionais. “Joguei em um dos maiores clubes da França e conquistei uma Ligue 1, duas Copas da Liga e um Troféu dos Campeões contra o PSG. Só tenho boas recordações dessa passagem”, lembra.
Mas foi no Montpellier que Hilton criou uma ligação ainda maior com torcida e clube. Ele chegou em 2011, aos 34 anos, quando muitos acreditavam que sua carreira estava próxima do fim. O que seria uma passagem curta se transformou em dez temporadas. Foram centenas de jogos, a braçadeira de capitão e um dos títulos mais importantes da história da equipe.
Na temporada 2011/2012, o Montpellier conquistou o Campeonato Francês, superando equipes tradicionais e o Paris Saint-Germain, que começava a receber investimentos internacionais.“Era uma equipe que, na época, ainda não tinha nem 40 anos de existência. Entrei para a história do clube ao conquistar o Campeonato Francês logo na minha primeira temporada”, afirma.
O título ficou marcado por enfrentar adversários com grandes investimentos. Para Hilton, ser capitão daquela equipe teve um significado especial, principalmente por ser estrangeiro em outro país. “Não é comum um jogador estrangeiro ser capitão em outro país”, destaca. A trajetória na França também colocou Hilton em uma marca pessoal: ele se tornou um dos estrangeiros com mais jogos no futebol francês e atuou em alto nível até perto dos 44 anos.
O tempo dentro das quatro linhas
A carreira de Hilton também ficou marcada pela capacidade de permanecer em alto nível por muitos anos. Enquanto muitos jogadores encerram a trajetória profissional ainda na faixa dos 30 anos, ele seguiu atuando, cuidando da rotina e mantendo a preparação como parte do dia a dia.
O zagueiro atribui a longevidade aos hábitos construídos durante a carreira. Alimentação, treinos complementares e disciplina fizeram parte da preparação para continuar competindo.
O último capítulo como jogador aconteceu em 2021, quando deixou os gramados após uma passagem pelo Sète. Ao todo, foram quase 25 anos dedicados ao futebol profissional, com experiências em diferentes países e campeonatos.
A aposentadoria, porém, não significou afastamento do esporte. Hilton iniciou uma nova etapa e passou a estudar para seguir no futebol fora das quatro linhas.
Ele conquistou a licença de treinador UEFA A e começou a acumular experiências nas categorias de base do Montpellier, clube onde construiu parte importante da sua história. “Depois de pendurar as chuteiras, comecei minha formação como treinador. Já tive experiências nas categorias Sub-19 e na equipe B do Montpellier. Agora estou iniciando uma nova etapa como auxiliar técnico do FC Nantes”, explica.
O próximo objetivo é continuar aprendendo. Hilton, que passou décadas dentro de vestiários e campos, agora busca transformar a experiência de jogador em uma nova carreira. “Hoje, meu maior objetivo é me tornar um grande treinador de futebol”, afirma.
As raízes que ficaram
Mesmo depois de tantos anos fora do Brasil, Chapecó continua fazendo parte da história do jogador. Foi na cidade que ele viveu os primeiros momentos como atleta, longe da família e em uma época em que ainda buscava espaço no futebol.
A relação com a Chapecoense mudou com o passar do tempo, principalmente pela distância. Atualmente, Hilton acompanha o clube de longe e observa a transformação da estrutura que encontrou no início da carreira. “Sei que o clube está muito bem estruturado, com centro de treinamento e toda uma infraestrutura que não existia na minha época. Fico feliz em ver que aquele pequeno clube do Oeste Catarinense se transformou em uma referência nacional”, comenta.
A lembrança dos primeiros anos segue presente. A casa próxima ao Índio Condá, os treinos em campos menores, as viagens de ônibus e as pessoas que ajudaram no começo fazem parte da construção da trajetória.
Para Hilton, o futebol trouxe mais do que títulos e reconhecimento. A caminhada ensinou valores que ele leva para a vida. “O maior aprendizado que o futebol me proporcionou foi nunca desistir dos meus sonhos. Além disso, aprendi valores como respeito, maturidade e disciplina”, destaca.
Aos jovens que hoje começam nas categorias de base, o conselho é manter os pés no chão. Segundo ele, o futebol exige dedicação, mas também é preciso estar preparado para outros caminhos. “Meu principal conselho é valorizar os estudos, porque nem todos conseguirão se tornar jogadores profissionais. Também é fundamental trabalhar duro, respeitar as pessoas e manter os pés no chão.”
Uma história que começou no Oeste
A trajetória de Vitorino Hilton atravessou continentes, conquistou títulos e colocou o nome de um jogador formado em Chapecó entre os nomes lembrados no futebol francês.
O garoto que chegou ao Oeste de Santa Catarina ainda na adolescência, sem conhecer o frio da região e distante da família, construiu uma carreira que passou por diferentes culturas e desafios.
Foram anos de viagens, treinamentos, jogos e mudanças. Em cada etapa, Hilton precisou se adaptar e encontrar espaço.
A história iniciada na Chapecoense chegou aos grandes estádios da Europa, mas mantém como ponto de partida o mesmo lugar onde tudo começou.
Hoje, a meta mudou. O zagueiro que marcou época dentro de campo começa uma nova jornada, agora tentando ensinar o futebol que aprendeu ao longo de quase três décadas.


