Em entrevista Ulisses Gabriel fala de vida, polícia e política no Estado
por Deisiana Damarat
Em entrevista ao Novo Folha Regional, o ex-delegado da Polícia Civil de Santa Catarina e pré-candidato a deputado estadual pelo Partido Liberal (PL), Dr. Ulisses Gabriel, reúne sua trajetória pessoal e profissional desde a infância em Turvo (SC) até a liderança da Polícia Civil de Santa Catarina. Ele ingressou na carreira em 2007, aos 24 anos, após formação em Direito, e atuou em diferentes frentes da segurança pública, incluindo gestão institucional, docência e formação de policiais. Também presidiu a Associação dos Delegados de Polícia e comandou a Delegacia Regional de Tubarão antes de assumir o cargo de Delegado-Geral da Polícia Civil do Estado entre 2023 e 2026. Paralelamente à carreira policial, teve atuação política com candidatura a deputado estadual em 2018, passagem temporária pela Assembleia Legislativa de Santa Catarina (Alesc) em 2020 e disputa pela prefeitura de Orleans no mesmo ano, além de sua atual pré-candidatura ao Legislativo estadual nas eleições deste ano.
O senhor tem uma bagagem enorme como delegado da Polícia Civil. O que te motivou a trazer essa experiência técnica de gestão de segurança do Estado para o cenário político-administrativo?
Sou natural de uma cidade pequena chamada Turvo (SC), que hoje tem cerca de 12 mil habitantes. Minha história é muito interessante, na minha visão, porque meu pai era alcoólatra e agredia fisicamente minha mãe. Uma vez, quando eu tinha sete anos de idade, ele estava agredindo ela, que estava grávida do meu irmão. Eu dei uma chinelada nele. Isso me marcou muito. Eu pensava como eu poderia sair dali e como poderia ajudar pessoas vítimas de violência. Fui seguindo minha vida, comecei a trabalhar cedo e vi que uma das formas de ajudar pessoas seria ser juiz de Direito. Eu via o juiz atuando em Turvo, prendendo criminosos e cumprindo mandados de prisão. Eu acreditava que queria ser juiz. Fui fazer faculdade de Direito em Araranguá. Trabalhei fora da cidade como voluntário, depois estagiário e depois funcionário. Quando me formei, queria ser juiz, mas havia uma emenda constitucional que exigia três anos de prática jurídica após a graduação. Surgiu o concurso para delegado, fiz a prova, passei e decidi fazer a academia de polícia. Comecei a atuar e me apaixonei pela carreira. Minha primeira delegacia foi a Delegacia da Mulher. Ali percebi que, como delegado, eu também poderia ajudar vítimas, oferecendo um atendimento de qualidade e evitando que elas sofressem novamente. Depois atuei em várias unidades e fui presidente da Associação dos Delegados do Estado entre 2015 e 2018. Nesse período, comecei a rodar o Estado e identificar problemas na segurança pública: falta de efetivo, falta de motivação dos policiais, falta de estrutura e delegacias precárias, o que prejudicava o atendimento. Passei a me envolver na busca por melhorias estruturais. Em 2023, após a eleição do governador Jorginho Mello, ele me convidou para ser chefe da Polícia Civil. Ele pediu duas prioridades: qualificar o atendimento ao cidadão catarinense e atuar com firmeza contra a criminalidade, para evitar que Santa Catarina seguisse caminhos de outros estados como Rio de Janeiro, Bahia e Ceará. Montamos um planejamento de 12 anos, com foco na melhoria do orçamento da Polícia Civil, que passou de R$ 77 milhões para R$ 146 milhões. Também atuamos na ampliação do efetivo, motivação, qualificação e valorização dos policiais, além da digitalização de processos para agilizar o trabalho e melhorar o relacionamento com a comunidade. O objetivo sempre foi combater o crime com firmeza e qualificar o atendimento às vítimas. São mais de um milhão de ocorrências por ano, e essas pessoas precisam de resposta do Estado. Esse foi um dos principais objetivos, também alinhado ao pedido do governador Jorginho Mello. Com isso, houve melhoria no desempenho da Polícia Civil. Comparando 2022 com 2023, o número de mandados de prisão cumpridos aumentou 66% e os mandados de busca e apreensão 59%. Esse crescimento segue de 2023 para 2024 e de 2024 para 2025. Ao mesmo tempo, houve redução dos crimes. Os homicídios caíram de 532 em 2022 para 513 em 2023 e depois para 429 em 2024. Santa Catarina passou a ser o estado mais seguro do Brasil desde 2023, com base em investimentos e integração entre forças policiais: Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Científica, Bombeiros e Polícia Penal. O governador Jorginho Mello pediu, no fim do ano, que eu fosse pré-candidato a deputado estadual. No início da legislatura, havia três deputados ligados diretamente à segurança pública: o delegado Maurício, que não concorre à reeleição; o delegado Egídio, que se tornou prefeito de Blumenau; e o Sargento Lima, pré-candidato a deputado federal. O governador entende que é necessário ter pessoas que conheçam a segurança pública na Assembleia Legislativa, porque as mudanças passam por leis. Quem conhece a área pode dar respaldo técnico ao trabalho policial. Por isso aceitei o desafio de atuar na política, para contribuir com a produção de leis e fortalecer a segurança pública.
Com toda a experiência que o senhor acumulou na Polícia Civil, como avalia hoje a situação da segurança pública na região da AMAI? Na sua visão, quais são os principais desafios que os municípios precisam enfrentar nos próximos anos e quais investimentos ou ações seriam essenciais para que a região avance e se torne referência ainda maior na área da segurança?
A região já é referência em segurança pública. O delegado Vinícius realiza uma gestão que abrange quatro comarcas: Xanxerê, Xaxim, Ponte Serrada e Abelardo Luz, que compõem a Delegacia Regional de Xanxerê. Nos últimos anos, foram feitas melhorias nas estruturas da Delegacia de Abelardo Luz, da Delegacia Regional, da DIC e da Delegacia de Comarca de Xanxerê. Também há busca por uma nova estrutura para a Delegacia da Mulher, que atualmente funciona em imóvel alugado. Houve renovação da frota de veículos, entrega de estruturas, armas e computadores. Neste momento, o principal desafio é o déficit de efetivo de agentes e escrivães, especialmente em Abelardo Luz, Ponte Serrada e Xaxim. O Estado já avançou na recomposição de delegados com novo concurso e também com psicólogo policial. Agora há concurso em andamento para agentes e escrivães. O objetivo é ampliar esse efetivo para melhorar o atendimento e qualificar o serviço prestado ao cidadão. Há grande volume de boletins de ocorrência e é necessário avançar também na tecnologia, para dar mais condições às investigações, especialmente em crimes de golpes e fraudes. O foco está em três pontos: efetivo, tecnologia e modernização de leis para permitir atuação mais rápida e menos burocrática da polícia. Esse é um compromisso do governo Jorginho Mello com a segurança pública. É preciso investir em pessoas, estrutura e qualificação. Sem investigação bem feita, o criminoso é preso e rapidamente solto, voltando a cometer crimes. Na região da AMAI, o principal ponto de melhoria é o reforço de agentes e escrivães na linha de frente das operações.
Como avalia o impacto da inteligência artificial na segurança pública, especialmente no trabalho das delegacias? E como o Estado está preparado para enfrentar desafios como golpes digitais e fake news potencializadas por essa tecnologia?
O crime evolui rápido e o Estado precisa evoluir ainda mais rápido. Foram adquiridos sistemas tecnológicos que aceleram investigações e ampliam a capacidade de análise de dados. Um software francês realiza em segundos o que um policial levaria horas para fazer. Um sistema israelense extrai dados telefônicos e integra informações para análise de deslocamento. Também foi adquirido um sistema de reconhecimento facial americano e outro que permite monitorar deslocamentos a partir de dados de celular. Além disso, há investimento em ferramentas para rastreamento de criptomoedas, já que criminosos têm utilizado esse meio em fraudes. O objetivo é antecipar ações criminosas e recuperar valores das vítimas. Outra frente importante é o combate à lavagem de dinheiro. Em muitos casos, mesmo com a prisão de um criminoso, a estrutura financeira continua ativa. A estratégia é atingir o patrimônio do crime para enfraquecer essas organizações. A Polícia Científica também avançou em perícias, especialmente em casos de fake news e uso de inteligência artificial para criação de conteúdos falsos. Há trabalho conjunto com o Tribunal Regional Eleitoral para respostas rápidas nesse cenário. Também estão sendo desenvolvidos estudos para uso de inteligência artificial em investigações, cruzando dados de crimes semelhantes ocorridos em diferentes cidades, permitindo investigações mais robustas. Foi criado um sistema único de denúncias com apoio de inteligência artificial. A tecnologia será, no futuro, o principal instrumento de combate ao crime.
Quais orientações o senhor daria à população para se proteger de golpes e se manter atenta à circulação de fake news no dia a dia?
É importante buscar sempre canais oficiais, como Polícia, Ministério Público, Poder Judiciário e veículos de imprensa. É preciso cuidado com informações recebidas por WhatsApp, pois muitas são falsas e acabam sendo amplamente compartilhadas. Já fui vítima de fake news que se espalharam como verdade, o que demonstra o impacto desse problema. Também é necessário atenção com links suspeitos, que podem roubar dados pessoais. Há golpes com boletos falsos, envio de objetos não solicitados, falsas chaves Pix e falsos advogados ou precatórios. Em caso de dúvida, a orientação é sempre confirmar com o número oficial do banco ou do escritório de advocacia. E-mails também podem ser usados como isca para roubo de informações. Antes de qualquer transferência de valores, é essencial confirmar todos os dados. Em caso de dúvida, o ideal é ligar diretamente para o banco. Essas medidas ajudam a prevenir crimes.
Quais são os principais pilares que o senhor projeta para o desenvolvimento e a melhoria do bem-estar da população da região da AMAI nos próximos anos?
Santa Catarina, nos próximos 50 anos, vai ter um aumento populacional muito grande. Nós aumentaremos o nosso contingente populacional em 50%. Hoje são oito milhões de habitantes e passaremos a ter 12 milhões de habitantes. Diante desse cenário, nós vamos ter que ter estruturas para atender essas pessoas. Então cidades como Xanxerê e outras aqui que compõem a AMAI vão ter que pensar no futuro. Já está pensando nisso na área de segurança pública, mas vai aumentar a necessidade de colégios, de postos de saúde, melhorar a estrutura de hospitais, porque isso vai acontecer num momento em que as pessoas estão vindo pro Estado para terem oportunidades. Quando temos um estado que tem pleno emprego, isso atrai pessoas boas e pessoas ruins. Portanto, temos que dar um retorno para essas pessoas, porque elas vêm pra cá e querem trabalhar e ter uma vida digna. A região da AMAI possui forte setor industrial e agropecuário, o que atrai mão de obra. Muitas pessoas que querem trabalhar aqui, querem vencer na vida, querem ter seu carro próprio, sua casa. Consequentemente, vai aumentar muito a população. É necessário planejamento agora para garantir qualidade de vida no futuro, com investimentos em estrutura e serviços.
Quais são as bandeiras centrais da sua candidatura e quais objetivos o senhor pretende alcançar caso eleito deputado estadual de SC?
Ulisses Gabriel: Uma das principais preocupações é com o interior do Estado, garantindo que os recursos cheguem aos municípios. Com o governador Jorginho Mello, esse movimento já ocorre com mais força. Outro ponto é o fortalecimento do municipalismo, porque a vida acontece nos municípios e é neles que os recursos precisam estar. O segundo ponto é a defesa de uma postura firme contra a criminalidade. O crime não pode se estabelecer em Santa Catarina, não podemos deixar o bandido se criar. A atuação deve ser dura no combate ao crime e também na política, com seriedade e responsabilidade na produção de leis e decisões públicas. Então a gente tem que fazer o bambu roncar contra a criminalidade, ser linha dura contra a criminalidade. E essa linha também se estende para a política. Quando temos um problema médico, procuramos um médico. Quando o problema é jurídico, se procura um advogado. E diante desse cenário, se temos um problema político, temos que procurar políticos, mas políticos sérios, que querem fazer a diferença.
