Canetas para diabetes geram debate sobre uso e acesso
Reportagem da Agência Brasil aponta que o uso de medicamentos injetáveis para tratamento de diabetes e obesidade tem gerado debate no Brasil e em outros países. Esses produtos começaram a ser comercializados no país em 2017. Desde então, novas opções foram desenvolvidas e passaram a ser utilizadas. O tema envolve questões de saúde, acesso e uso adequado.
O endocrinologista Neuton Dornelas, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, afirma que o termo mais adequado é “medicamentos injetáveis para tratamento da obesidade e de diabetes”. “Estamos falando de medicamentos que realmente trouxeram uma revolução no tratamento dessas duas doenças, com resultados na perda de peso e na diminuição de risco cardiovascular”, diz. Ele também reforça que o uso deve seguir critérios definidos por profissionais de saúde.
“São medicamentos indicados para quem vive com obesidade ou com diabetes ou com as duas coisas juntas. São critérios técnicos que devem ser avaliados sempre por um profissional de saúde”, recomenda o especialista. O uso sem orientação médica não é indicado. A avaliação depende de cada caso.
A reportagem traz o caso de Francenobre Costa de Sousa, de 58 anos, que vive com diabetes tipo 2. O diagnóstico ocorreu aos 45 anos, após um desmaio. Ela faz uso de insulina, mas ainda enfrenta dificuldades no controle da doença. O tratamento segue acompanhamento na rede pública.
Acesso e custos
A médica Alexandra Padilha, que acompanha a paciente, afirma que os medicamentos injetáveis poderiam auxiliar no tratamento. “Seria muito interessante porque poderia até reverter o uso da insulina, no caso dela. Ela tem sobrepeso, poderia voltar para o seu Índice de Massa Corporal [IMC] normal". A indicação depende de avaliação clínica. O acesso ainda é limitado para parte da população.
Especialistas apontam que a ampliação do acesso depende de fatores econômicos e industriais. Entre eles, está a queda de patentes e a produção nacional. Em março deste ano, expirou a patente da semaglutida, usada em medicamentos como Ozempic e Wegovy. A mudança abre espaço para concorrência no mercado.
Mesmo com a queda da patente, o custo pode continuar elevado. “Mas é preciso pensar que, muito embora vá baratear, não é um amplo e pleno barateamento. A produção da substância, do insumo farmacêutico ativo, é uma produção mais complexa do que os chamados medicamentos genéricos”, explica Henderson Fust. A fabricação envolve etapas específicas.
O Ministério da Saúde informou que pediu prioridade no registro de medicamentos com semaglutida e liraglutida. A medida busca viabilizar produção nacional. Em 2025, a Conitec deu parecer contrário à incorporação desses medicamentos no SUS. O impacto orçamentário estimado ultrapassa R$ 8 bilhões.
Uso e regulação
A reportagem também aborda o aumento do uso desses medicamentos no país. Pesquisadores apontam que a popularização está ligada a padrões sociais relacionados ao corpo. A professora Fernanda Baeza Scagliuzi afirma que há pressão estética. “Um corpo gordo é visto como o de alguém que é preguiçoso, que é relaxado, que não tem força de vontade, não tem disciplina e outros estereótipos também muito perigosos”.
Além disso, há relatos de pessoas que utilizam os medicamentos e voltam a ganhar peso. A dentista Bárbara Lopes afirma que já passou por esse processo. “Eu mudava alimentação, buscava fazer um pouco de exercício e não via aquele quadro mudar”. O tratamento envolve diferentes fatores.
Sociedades médicas indicam que o uso desses medicamentos deve ser associado a mudanças no estilo de vida. A médica Marcela Pandolfi destaca esse ponto. “O estilo de vida para esse paciente vai ser fundamental. É isso que vai fazer com que ele consiga pelo menos equilibrar, fazer com que ele não volte a ganhar todo o peso que perdeu no processo do tratamento”. A orientação inclui alimentação e atividade física.
O aumento da procura também levou a ações de fiscalização. A Anvisa ampliou o controle sobre importação, prescrição e venda desses produtos. Órgãos de segurança e a Receita Federal investigam irregularidades. As medidas envolvem proteção à saúde pública.
Novas regras e medicamentos
A Anvisa aprovou em 22 de abril o uso do medicamento Mounjaro para tratar diabetes tipo 2 em crianças a partir de 10 anos. Antes, a indicação era apenas para adultos. “A única mudança foi a ampliação da população-alvo para tratamento de diabetes, que era apenas de uso adulto e agora passa a ser de uso pediátrico”. As demais indicações seguem sem alteração.
O medicamento faz parte de uma classe conhecida como agonistas do receptor GLP-1. Esses produtos são conhecidos como canetas injetáveis. O uso depende de indicação médica. A aplicação segue protocolos definidos.
Na próxima semana, a Anvisa deve discutir regras para manipulação desses medicamentos. A proposta inclui critérios técnicos para farmácias. A medida integra um plano de ação voltado à regulação do setor.
A agência também criou grupos de trabalho para acompanhar o tema. Um deles reúne representantes de conselhos profissionais. Outro grupo acompanha a implementação de medidas e propõe ajustes. A proposta é ampliar o controle e garantir a segurança dos pacientes.
